Estudantes e professores do Instituto de Letras e Artes da Furg lotaram a sala 419 do pavilhão 4, no Campus Carreiros, na tarde de quinta-feira, 3, para ouvir o professor Hugh Hazelton sobre a presença latino-americana na literatura Canadense.

Poeta, crítico literário e tradutor, Hugh Hazelton dedica-se ao estudo da produção literária de autores latino-americanos residentes no Canadá. Já traduziu obras do espanhol, do português e do francês ao inglês, e do inglês ao francês. Em novembro de 2006 recebeu o “Premio de la Gobernadora General de Canadá” pela tradução da obra “Vétiver”, de Joël Des Rosiers. Um pouco antes das 14h, Hazelton desenha com giz no quadro negro o mapa do Canadá, destacando cidades do país, e apontando as regiões que mais receberam escritores emigrados das Américas Central e do Sul.

Segundo o docente da Concordia University, de Montreal, os golpes de estado e os regimes ditatoriais dos países latino-americanos produziram as primeiras ondas de emigração ao Canadá, nos anos setenta. Na década seguinte, questões econômicas foram as principais razões para a saída de latino-americanos de seus países de origem em direção às terras canadenses. A partir da década de noventa, motivações pessoais impulsionam a migração. Entre exilados e refugiados políticos e econômicos vindos de países como Chile, Uruguai, Argentina, Peru, Colômbia e Brasil, muitos escritores se estabelecem no Canadá. O conjunto de escritos produzidos no país de acolhida por esses autores emigrados constituem a literatura latino-canadense, objeto de estudo de Hazelton.

Os temas da militância política, da nostalgia, do exílio e da não adaptação ao novo lugar aparecem com recorrência nas obras literárias de autores latino-canadenses. “O autor se encontra mentalmente em seu país de origem, ainda que fisicamente esteja em outro lugar“, diz Hazelton, por isso é comum que geralmente escrevam sobre seu país natal e não cheguem a sentir vinculo cultural com o Canadá.

Hazelton tratou ainda do mercado editorial para as publicações latino-canadenses e abordou questões de tradução e as implicações da língua para a circulação das obras no Canadá e nos países latino-americanos. Houve, em princípio, um movimento de produção mais artesanal de livros e revistas promovido pelos próprios autores, mas atualmente já existem editoras especializadas nessa produção literária específica, que se dedicam inclusive a elaborar publicações em versões bilíngue e trilíngue.

O inglês e o francês, idiomas considerados hegemônicos no Canadá, normalmente não são adotados pelos escritores latinos. Nesse sentido, a tradução tem papel importante na identidade do país e da literatura latino-canadense, bastante marcada por uma relação afetiva entre tradutor, obra e autor. Conforme Hazelton, “os primeiros tradutores desses autores foram seus maridos e esposas, seus amigos, muitos deles se transformaram em tradutores profissionais”. O professor destaca a autotradução como prática crescente entre os escritores latinoamericanos, que facilita o encontro com o público leitor.

Diversas produções latino-canadenses foram comentadas, entre elas Hazelton citou a criação dramatúrgica híbrida do chileno de Montreal Alberto Kurapel, as criações literárias da chilena de Vancouver Carmen Rodríguez, do brasileiro Sérgio Kokis, do chileno radicado em Ottawa Leandro Urbina, da colombiana Yvonne Truque e da argentina Nela Rio, “uma autora bastante consagrada agora”, salienta.

Com relação à critica a respeito dessa literatura nova, Hazelton faz referências aos estudos de Luiz Torres, Jorge Etcheverry e Margarita Feliciano, além do seu estudo pioneiro “Latinocanadá: A Critical Anthology of Ten Latin American Writers of  Canadá”, em que apresenta o fenômeno histórico-literário e a análise da obra de dez autores. Sobre o futuro da literatura latino-canadense, o professor conta que se afirma uma geração formada por filhos e filhas dos imigrantes, “que escrevem com a mesma paixão que seus pais, mas nas línguas hegemônicas”.

Hazelton participa de um projeto de tradução que organizará o número especial da revista Elipse, em que uma seleção da obra de autores brasileiros contemporâneos será traduzida por canadenses ao inglês e ao francês. O professor expressa a intenção de estreitar o intercâmbio entre Brasil e Canadá, “gostaria de ver agora uma reciprocidade e fomentar o interesse que já existe nesse tipo de literatura”.

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